12 de novembro de 2013

Elefante (2003)

A vitória de Elefante sobre o favorito Dogville, de Lars Von Trier, no Festival de Cannes de 2003 veio como surpresa. Ambos abordam o terrorismo doméstico em virtude do abuso moral. Baseados nas falhas do “American Way of Life” Elefante e Dogville tecem críticas ao modo de vida e política dos norte americanos. Inspirado no Massacre de Columbine, Gus Van Sant nos mostra um dia comum na Escola Secundária de Portland, exibindo seus alunos em atividades curriculares e a interação com os colegas, nem sempre amigável, resultando em bullying e abuso moral. Sant filmou Elefante (Elephant) de modo despretensioso, embora a obra seja de incalculável preciosismo, enquanto o adjetivo que mais se encaixa no perfil de Trier é a pretensão, seja em Dogville ou em qualquer trabalho de sua autoria.

A dinâmica das filmagens e a posição das câmeras nos dão a noção exata do que se passa dentro da escola. O intrincado labirinto de deslocamentos de personagens pelo qual Sant cunhou seu roteiro faz com que inúmeros personagens se esbarrem pelos corredores o que aumenta nossa dimensão de tempo e espaço e adiciona uma carga extra de angústia por desconhecer o momento exato e o local em que começarão os disparos contra os próprios alunos. O ambiente criado pelo diretor é tão familiar que nos sentimos dentro da escola. A despretensão de Sant está em focar suas lentes na rotina dos alunos de forma simples, é possível que os próprios personagens tenham improvisado suas falas. Vale ressaltar a técnica quase neorrealista, todos os atores não são profissionais e os nomes utilizados por eles no filme são todos reais, o que aumenta a familiaridade entre eles, como se fossem verdadeiros colegas de escola.

John (John Robinson) dá início ao filme no que seria mais um dia letivo normal, sai de casa rumo à escola, nos corredores ele cruza com alguns colegas, um deles é amante de fotografia e está se dirigindo ao laboratório. Mais tarde iremos acompanha-lo e nesse trajeto ele cruzará com John e com uma aluna que sofre pela rejeição das colegas que a chamam de “esquisita”. As idas e vindas dos alunos desenham toda a escola a partir da participação de John que ao sair cruza com os atiradores entrando, este é o marco que nos prende à película. Sem tentar explicar os motivos que levaram os dois alunos a realizar a chacina, mas sim apontando possíveis organismos causadores do distúrbio, Gus Van Sant desenvolve o filme descrevendo os diferentes grupos existentes dentro da escola. Em toda sociedade a criação de grupos acaba segregando alguns elementos. E justamente a segregação gerada é abrangida como combustível dos atiradores. A dura crítica à política norte americana vem em decorrência da facilidade com que se adquirem armas no país, outro fato decisivo para a chacina.


O Massacre de Columbine ocorreu em 1999, ao todo foram 15 vítimas fatais e 25 feridos.  Um dos atiradores vestia uma camiseta com a frase estampada: Natural Selection, vista por sociólogos como típico exemplo de sociedades fechadas passando por drásticas mudanças. O Condado de Jefferson, onde ocorreu o ataque, é famosa por ser conservadora e privilegiar jogadores de futebol americano, basebol e basquete, a distribuição de renda é bem alta e o índice de violência muito baixo, o que criou um organismo superior alvo da minoria que se sentia discriminada, o que é bem visível em Elefante.

Confira o trailer:


Olhando pela ótica filosófica em contexto com o título do filme, Elefante fica ainda mais evidente como fator estritamente comportamental e inúmeras vezes negligenciado pela sociedade. Gus Van Sant se inspirou no filme homônimo de 1989, dirigido por Alan Clarke que também aborda a violência juvenil. O título de Elefante de Alan Clarke não deriva da parábola budista como Sant acreditava, mas sim pelo fato do problema retratado no filme ser “tão facilmente ignorado como um elefante na sala”. A parábola conta sobre um grupo de cegos que examinam um elefante, cada um afirma de modo inequívoco que compreende a natureza do mamífero apenas pela parte que lhe foi conhecida pelo tato. Ninguém vê ou sente o objeto na totalidade, mas todos desferem palpites totalizantes – nenhum dos cegos consegue descrever o animal com coerência. O pior cego não é aquele que não quer ver, mas aquele que afirma o contrário.


E que o cinema esteja com vocês!