15 de dezembro de 2013

Dogville (2003)

Lars Von Trier é um dos diretores mais pretensiosos do cinema, o que por vezes beira a arrogância, mas, de acordo com Dogville, o excesso de servidão também é considerado arrogância pela natureza de quem a pratica confrontada com quem a recebe. Não podemos deixar de admirá-lo pelas obras fortes e polêmicas. O que não é diferente em Dogville, lançado em 2003 chegando como favorito a Cannes e sendo superado por Elefante. O longa possui idealismo e conteúdos forte e brutal, o que torna a tarefa de descrevê-lo completamente ingrata. O filme trata de questões filosóficas, mitológicas e religiosas, mas a maior parte das evidências aponta para uma crítica cristã e ao modo de vida americano – American way of life.

Lars Von Trier
Membro criador do Dogma 95, movimento que preza o cinema de forma realista e menos comercial, Von Trier implantou inúmeras características do manifesto em Dogville. O mais evidente é a ausência de cenários, o filme foi filmado em um galpão na Suécia e as pessoas que estavam fora de cena podiam ser vistas em seus afazeres devido à falta de paredes ou divisões entre as casas. Tendo em vista expressamente o conteúdo e não a forma, a crítica em Dogville torna-se dura e contrasta com a realidade teórica dos intelectuais que a formulam, mas nada realizam. Esse ponto fica claro com o personagem Tom Edison (Paul Bettany) que usa Grace (Nicole Kidman) como objeto de estudo social e ético para compor seu “livro”. Aqui, além da teorização das relações humanas, temos uma possível citação a Tomé (Tom) e seu evangelho apócrifo, ao fim do filme Tom pede a Grace permissão para contar os fatos ocorridos em Dogville em seu livro. A crítica também se estende aos “fariseus” que se escondiam atrás da palavra de Deus, mas não praticavam o que defendiam, apenas julgavam os que nela não se enquadravam, e por consequência aos americanos, sendo a América o continente com maior número de cristãos do mundo e os Estados Unidos o país que “interfere” na maioria dos assuntos políticos mundiais.

Dogville

Dogville aborda duas linhas distintas de filosofia, o estoicismo e o niilismo. O desenvolvimento do filme se dá de forma estoica e em sua conclusão surge um “deus” niilista que responsabiliza os habitantes por seus atos de omissão, estes por sua vez defendem a postura omissa do estoicismo e aceitam os males e os erros como sendo vontades da natureza, atos naturais. Grace é a matriarca do comportamento servil e ensina o estoicismo para os filhos filhos de Vera (Patricia Clarkson) e Chuck (Stellan Skarsgård) como forma de aceitarem a fome e pobreza sem revoltas . Ela foi acolhida pelos habitantes de Dogville e por esconder um segredo todos concordam em aceita-la desde que os ajudasse em seus afazeres - espécie de quid pro quod que exige uma recompensa por cada ação, contrariando a postura altruísta de Grace. Seguindo a linha de Aristóteles o excesso é um erro grave, devemos conduzir tudo com harmonia, até o excesso do perdão beira a arrogância, quem perdoa se põe em uma posição acima de quem erra, essa denotação tende a derrubar os pilares da religião erguidos nas Américas que imploram por perdão, mas são incapazes de perdoar. A sensibilidade com que Von Trier conduz a arrogância é um dos pontos mais significativos e belos do filme e contrasta diretamente com a mesquinharia do homem que se torna insensível a fim de saciar suas necessidades, ainda que estas dependam da exploração de outro homem.

Habitantes de Dogville

Adentrando a seara religiosa podemos citar vários exemplos e referências ao cristianismo e a mitologia. A primeira delas vemos no início do filme, o próprio nome de Nicole Kidman – Grace – remete-nos à Graça concedida por Deus aos mortais pecadores, e é nesse mesmo sentido que ela surge aos moradores de Dogville. O cão que ladra ao conhece-la chama-se Moses (Moisés) é o único que possui motivo para não gostar dela, pois tem seu osso roubado por Grace, e late sempre que a vê. O desfecho da obra ainda nos reserva um personagem que sacrifica seu único filho e se revela um Deus niilista afirmando que: ou se julgam todos na mesma moeda ou não há julgamento justo. E ainda: eu sou o que sou! Descrição dada por Deus sobre si mesmo. Aos cristãos é como se lhe abrissem a ferida enchendo-a de brasas e ludibriando a dor principal com um incêndio na carne do portador da ferida, que entorpecido por tamanho sofrimento libera seus sentidos para ver a luz projetada em seu corpo em formato de labaredas laranja azuladas.

Dogville faz parte da trilogia USA - Land of Oportunity, que possui ainda Mandelay (2005) e Washington sem data de estreia. Pode ser visto como uma fábula da desgraça humana causada por ela mesma sob aspectos de hipocrisia, falsidade e acima de tudo um dogmatismo maligno que corrompe todos os organismos da sociedade, principalmente a moral. Entre os moradores temos seis pecados capitais representados, não consegui identificar a preguiça que talvez esteja relacionada com a falta de vontade moral dos moradores, o que pode se reverter para o comodismo impresso em cada um. A vaidade está presente em Liz Henson (Chloë Sevigny), que deseja ser mais bela que Grace, o orgulho está em Jack McKay (Ben Gazzara) um cego que não sai de casa para que ninguém saiba de sua condição visual, o que todos já conhecem, a ira de Vera que aliada à inveja de seu marido Chuck arranca lágrimas de Grace ao destruir suas bonecas de porcelana, o vidro quebrado lembrava o tecido humano despedaçado. A luxúria é encontrada em Ben (Zlejko Ivanek), motorista da cidade que uma vez por mês visita um bordel e tem vergonha disso, mas é incapaz de fazer algo a respeito. A avareza é vista em Ma Ginger (Lauren Bacall) que possuía um pomar cuidado por Grace. Inicialmente ninguém precisava de nada, estavam insuflados de ego e orgulho a tal ponto que se cegaram diante do espelho da vaidade, mas de repente todos tornaram-se dependentes dos trabalhos de Grace ao ponto de não viverem sem ela.


Confira o trailer:


Dogville possui a grandeza humilde da simplicidade vultuosa e genial. É uma aula de compaixão sem escrúpulos. A sensibilidade nua, crua e escancarada. É como aquela visita inesperada e inoportuna que somos obrigados a receber em prol de nossa boa índole e costumes, mas que no fim desmorona causando grande catástrofe e revelando-nos anfitriões imorais e torpes. Assim é a obra magnífica de Lars Von Trier que merece ser vista e revista e acima de tudo merece todo o respeito do tamanho da ambição de seu diretor.

E que o cinema esteja com vocês!