10 de fevereiro de 2014

A Grande Beleza (2013)


A Grande Beleza é um filme poético, portanto a analogia com Amor, vencedor do Oscar 2013, faz-se necessário. Lembro-me que ao escrever a crítica do filme franco-austríaco fui tomado por um espírito de beleza e elucidação, como se a verdade do mundo estivesse presente em um fim de tarde simples ao pôr do Sol. Com a obra italiana, favorita à premiação em 2014, assinada por Paolo Sorrentino não foi diferente. Tudo termina com um ponto final, mas antes havia as palavras, tudo termina no silêncio, mas antes havia a fala, tudo termina com a morte, mas antes havia a vida. Essa é a síntese dessa obra tão comparada com os trabalhos do maior cineasta italiano, Federico Fellini, que tem em A Doce Vida (1960) a maior fonte inspiradora.

Jep Gambardella escritor de meia idade que publicou apenas um livro - O Aparato Humano - encontra-se em uma fase de reflexão na qual filosofa sobre sua vida, amores, palavras e principalmente sobre a banalidade da burguesia italiana. Os diálogos filosóficos não se resumem à presença de Toni Servillo (Gambardella), o roteiro de Sorrentino e Umberto Contarello está repleto de passagens introspectivas e incisivas, como o monólogo escrito por Romano (Carlo Verdone) interpretado no teatro por ele mesmo: “Passei todos os verões de minha vida fazendo planos para setembro, agora não mais, apenas recordo das boas intenções que se foram. A saudade é a única distração para quem não tem fé no futuro”.


Jep Gambardella e a alta sociedade

E Jep Gambardella nos brinda com um dos melhores monólogos do cinema dos últimos tempos: “Após uma vida de embaraços e espasmos de beleza incompleta e imperfeita sedimentada pelos dias claros e noites frescas, sob muito falatório do que deveria ser, surge o manto suave e indelével da morte que nos encerra na imortalidade de nossos anos passados ao lado de pessoas que nem sempre nos foram agradáveis”.


“Tanto tempo foi perdido com blá-blá-blá para que chegássemos tão longe e quanto mais avançamos menos podemos fazer. Só nos resta a nostalgia de uma vida que não irá a lugar algum. A mim resta o silêncio sepultado em minha centelha de incompreensão, a mim resta descobrir a grande beleza e cunhar o romance de minha vida vã que só terá sentido claro para minha cegueira quando for morte. Tudo está entre estes dois mundos, mas estamos apenas deste lado, todo o resto é solo un trucco, solo un trucco”.

E finaliza: “E termina sempre assim, com a morte, mas antes havia a vida escondida sob o blá-blá-blá, sob a insignificância de nossa própria existência vazia e hedonista. Tudo sepultado pelo embaraço de estar no mundo... solo un trucco, solo un trucco”.

Confira o Trailer:

A maior mensagem de A Grande Beleza envolve a futilidade das coisas e pessoas, não precisamos de gente que nos admire ou admire nosso trabalho, isto alimenta apenas o ego, precisamos de pessoas que nos compreendam. Classificar o incompreensível como extraordinário não é o que buscamos, mas sim o sentido de tudo que é oculto a nosso entendimento... buscamos a grande beleza ainda encoberta pelo tempo de nossa vida que se arrasta como relógio e grita a cada hora na alusão de um ritual macabro contando os segundos para nosso fim.

E que a grande beleza do cinema esteja com vocês!



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