20 de junho de 2013

Cartas de Iwo Jima (2006)

As cartas encontradas em Iwo Jima em 2005 inspiraram o livro de Tsuyuko Yoshido, que narra a rotina da ilha mais trágica do Pacífico durante a Batalha de Iwo Jima sob a ótica do tenente-general Tadamichi Kuribayashi. O governo japonês ainda hoje designa expedições para a recuperação dos mais de 12 mil corpos ainda não encontrados e algumas vezes a memória daqueles que lutaram e morreram bravamente são recuperadas e imortalizadas. Clint Eastwood tornou esse episódio sangrento conhecido do público ocidental em Cartas de Iwo Jima (Letters from Iwo Jima) continuação de A Conquista da Honra (Flags of our Fathers) e inova com um díptico contendo os pontos de vista dos dois países envolvidos na batalha, Estados Unidos (A Conquista da Honra) e Japão (Cartas de Iwo Jima).

Foto de Joe Rosenthal
O pior erro japonês do século passado foi sem dúvida o ataque a Pearl Harbor em 1941, que culminou com a entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. O Japão lutava ao lado da Alemanha pela crença no shido minzoko (raça líder) que superava a seleção ariana de Hitler pela disciplina cultural milenar dos japoneses. Os soldados da Terra do Sol Nascente subestimaram a força tecnológica dos EUA e acreditaram que com ataques suicidas iriam desestabilizar a tropa inimiga. Os japoneses se consideravam imbatíveis e unidos, os ataques à China e à Pearl Harbor, deram a eles uma noção de guerra que se encerra no campo de batalha. Mas a política dos norte-americanos ressurgida com a fotografia histórica  de Joe Rosenthal da bandeira hasteada no Monte Suribachi e a tecnologia ainda desconhecida no mundo oriental demonstraram que não eram apenas um país do novo mundo povoado por donas de casa e materialistas que abandonariam a batalha ao primeiro contato com o disciplinado exército imperial.

Ilha de Iwo Jima
As batalhas que ocorreram no Pacífico são praticamente desconhecidas pelo grande público do ocidente. Para a maioria a Guerra ocorreu na Europa e por lá se estendeu até seu término, mas a batalha mais cara da Segunda Guerra aconteceu em uma ilhota de pouco mais de 20 mil Km². Iwo Jima, que significa Ilha de Enxofre, tornou-se estratégica para os Estados Unidos por fornecer um local para aterrissagem e reabastecimento de seus bombardeiros. A Batalha de Iwo Jima teve um saldo de aproximadamente 30 mil mortos, cerca de 22 mil do lado japonês (pouco menos de 200 do efetivo total sobreviveram) e 7 mil do lado americano. Devido à preparação japonesa a batalha foi mais dura que supunham os americanos. A estratégia de Kuribayshi de não oferecer resistência na praia, mas sim em cavernas dentro do Monte Suribachi mostrou-se genial. O bombardeio sobre a ilha que durou três dias, teria exterminado todos os soldados japoneses, já que a Ilha não fornece pontos de defesa naturais, como cavernas ou florestas. Para a construção dos bunkers foram trazidos engenheiros do Japão que projetaram os fantásticos túneis que mantiveram os japoneses na batalha por cerca de 35 dias. Os planos eram de construir um túnel que ligava o sul ao norte da Ilha, de modo que todas as cavernas tivessem acessos entre si, se tivesse tido tempo para isso a conquista do Suribachi teria desdobramentos diferentes dos conhecidos hoje.

Clint Eastwood e Ken Watanabe
Há também o lado humano retratado por Eastwood de forma impactante e dramática. A fotografia de Tom Stern revela momentos de tensão ficando acinzentada à medida que o drama aumenta, como se a pressão sanguínea subisse ao ponto de um colapso, os olhos perdem a capacidade de distinguir as cores e a todo momento somos deparados com medos e anseios. As notícias que chegam do Japão ajudam no desolamento do ambiente, sem nenhum tipo de ajuda apenas a esperança resiste. A coragem e lealdade dos soldados japoneses tornam Cartas de Iwo Jima um filme de guerra que merece ser visto e respeitado. Especialmente pela ausência de clichês no que tange o campo de batalha, é certo que a presença de Steven Spielberg como produtor trouxe certos elementos que não estão presentes na filmografia de Clint Eastwood, como a presença ficcional de Saigo, interpretado pelo ídolo juvenil japonês Kazunari Ninomiya que quebra a tensão, mas tira a seriedade do trabalho carrancudo de Eastwood, que é justamente a virtude mais notável do lendário diretor de Os Imperdoáveis.

Nishi Takeichi
O total isolamento e abandono dos soldados imperiais gera reações adversas em cada um dos combatentes, alguns tiram a própria vida para honrar a batalha, outros apenas lutam e alguns contam com a fé em algo impossível para continuarem de pé. Nishi Takeichi, vivido por Tsuyoshi Ihara, foi medalhista olímpico em Los Angeles em 1932, até hoje a única medalha de ouro do Japão no hipismo, Nishi disputou também as Olimpíadas de 1936 em Berlim, há rumores de que ele fez corpo mole para que os alemães levassem o ouro em virtude da aliança dos dois países. Enquanto esteve nos Estados Unidos tornou-se amigo de um dos casais mais badalados do cinema da época, Mary Pickford e Douglas Fairbanks, ela, a Queridinha da América, ele The King of Hollywood. Fairbanks foi a principal inspiração para O Artista, filme vencedor do Oscar de melhor filme de 2012. Em uma das cenas Baron Nishi, como era conhecido, pede que cuidem de um americano ferido, em um inglês carregado de sotaque (os diálogos do filme em sua maioria são em japonês) ele revela que esteve nas Olimpíadas e que conhece as duas estrelas. Há relatos históricos que corroboram esse fato.

Tadamichi Kuribayashi
O grande destaque do longa é a atuação de Ken Watanabe, conhecido do público ocidental por papeis em Batman Begins e A Origem. Como tenente-general Tadamichi Kuribayashi ele arrebatou as críticas e ganhou o carisma do público, principalmente no Japão onde o filme foi um sucesso. Demonstrando empatia, sensibilidade e honra, Kuribayashi permaneceu de pé e com esperanças de vitória até o último suspiro. No filme sua morte utilizou critérios de dramatização, historiadores afirmam que provavelmente sua morte se deu no campo de batalha e seus companheiros ocultaram seu corpo que até hoje não foi encontrado. Os japoneses aclamaram o filme pela fidelidade com os fatos e humanização dos soldados, que mesmo estando lutando em prol da segregação racial eram apenas soldados defendendo seu país, longe de compartilharem os ideais políticos daqueles que traçaram seus destinos. Ganhou o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro, ainda que seja uma produção americana, o idioma falado no longa é japonês.

Em uma guerra é difícil dizermos quem está certo ou errado, os americanos, ao menos, lutavam contra uma causa maior: o antissemitismo. Mas assistindo Cartas de Iwo Jima é difícil não torcer a favor dos japoneses e se emocionar com o desfecho da história ainda que seja do lado errado dela.

Confira o trailer:

Que o cinema esteja com vocês!