26 de março de 2014

Nebraska (2013)

Um dos melhores filmes dos últimos anos. Equilíbrio entre emoção e humor. Doses exatas de realidade e sonhos. E simplesmente fantástico nos valores repassados pelas gerações e no que aprendemos com os mais velhos, acima de tudo nossos pais. Assim é Nebraska novo filme de Alexander Payne que vem erigindo uma carreira sólida, bem cuidada e regular. O tom melancólico do preto e branco é quebrado por situações cômicas e incomuns, o andamento romântico pode enganar os mais desavisados e agir como tapa na cara. O longa foi indicado em seis categorias do Oscar 2014, incluindo melhor filme, diretor, ator principal, atriz coadjuvante e roteiro original. Este último merecia o prêmio, o estreante Bob Nelson nos apresenta uma obra que remete ao humor dos Irmãos Coen e também ao seus desfechos inusitados, inesperados e magicamente perfeitos. Daqueles que te deixam boquiabertos e pensativos se aquilo que você viu é o que realmente aconteceu ou é apenas o que você queria que acontecesse.

Bruce Dern e Will Forte

A obra por si só surpreende e beira o inacreditável, mas sem perder os parâmetros da realidade em nenhum ponto. Somos apresentados a Woody Grant, vivido de forma única por Bruce Dern, um idoso alcoólatra e doente que acredita ter ganhado na loteria. Ele vive em Billings, Montana, com a família e precisa ir a Lincoln, Nebraska, para receber seu prêmio. Mas seu bilhete não passa de uma carta enviada pelos Correios por uma empresa de assinaturas de revistas. Além da saúde debilitada e idade avançada, ele sofre com a falta de compreensão que imprimiu em seus filhos e que agora refletem nele. David Grant, seu filho mais novo, interpretado pelo humorista Will Forte, decide dar uma última chance a seu pai e leva-lo para Lincoln. Começa aqui uma viagem por sonhos cinzas e desgastados, mas que jamais deixaram apagar a chama da vida.

Woody e Kate

No meio da viagem eles passam por Hawthorne, cidade na qual Woody conheceu sua esposa Kate Grant, na bela atuação de June Squibb, uma mulher desbocada que não poupa nem os mortos de seus comentários ácidos e vive implicando com seu marido, difícil é definir qual dos dois é mais ranzinza. Sua postura é de uma mulher com instinto materno ativo, protetora e cuidadosa, defende Woody como ninguém. Em Hawthorne é traçado um microcosmo da crise americana, logo todos estão interessados no novo milionário. A cidade é um retrato do envelhecimento bem caracterizada pela fotografia em preto e branco de Phedon Papamichael.


O filho mais velho de Woody, Ross (Bob Odenkirk), também se junta à família em Hawthorne e repassam o passado dos pais. Em uma das cenas mais emocionantes eles visitam a antiga casa de seu progenitor em uma fazenda afastada da cidade. A carga emotiva que podemos suportar com a idade é imensa e o modo como lidamos com ela é indefinível. Mas Woody não teme os fantasmas do passado está focado apenas em chegar a Lincoln o mais rápido possível para receber seu prêmio milionário. Durão e teimoso ele só se curva a sua esposa, ao menos enquanto ela estiver olhando.


Confira o trailer:


Este sem dúvida é o melhor trabalho de Payne em sua curta carreira cinematográfica, uma mensagem de cuidado e de como conduzir nossos sonhos pelo acaso caótico de nossa vida. A compreensão e serenidade pelo próximo é o que fala mais alto em Nebraska, um dos filmes que entra em minha lista dos melhores de todos os tempos.

E que o cinema esteja com vocês!