27 de março de 2013

O Iluminado (1980)


Há exatos seis meses era criado O Cinematógrafo, nada mais justo que um clássico como O Iluminado (The Shining) para comemorar essa data. Baseado no livro homônimo de Stephen King que por sua vez inspirou o título na canção de John Lennon Instant Karma no trecho “We all shine on...”. O Iluminado tornou-se um dos símbolos do terror e uma das obras-primas de Stanley Kubrick. O sucesso do filme deve-se a três fatores que merecem mérito os quais discorrei a seguir.

Stephen King
O livro O Iluminado foi lançado em 1977, sendo o terceiro livro da brilhante carreira do mestre do terror e do suspense Stephen King. Além disso, foi o primeiro Best-seller em capa dura do autor. A construção da obra não poderia ser melhor. O tom de suspense que a acompanha faz com que o medo permeie a leitura, por mais que isso pareça demasiado, ainda mais se tratando de um livro, é bem verdade que Stephen King consegue exprimir essa carga dramática de tensão em suas linhas capaz de deixar qualquer pessoa com os nervos aflorados.

Algumas passagens do livro são descritas e construídas minuciosamente com precisão cirúrgica nos fazendo acreditar no impossível, como na imagem dos arbustos que se transformam em monstros ao serem movimentadas pelo vento, mexendo com nosso subconsciente como se estivéssemos lendo o livro em uma floresta à noite e temendo pelo desconhecido, tanto das palavras ainda por vir como da natureza a nos espreitar. O modo como King brinca com os elementos do terror e suspense com maestria única, o elevam a um patamar genial e brilhante. A composição da obra é praticamente impossível de ser recriada em toda sua complexidade e sensações. Por conhecer essa complexidade Kubrick criou uma obra quase dele, o que irritou King.

Stanley Kubrick
Ao não copiar o mundo de O Iluminado de forma fiel ao livro Stanley Kubrick comprou uma briga com os fãs de Stephen King. O diretor decidiu-se por realizar uma obra ambígua e sem tomar partido completamente das forças ocultas como a paranormalidade, possessão e fantasmagoria sobrenaturais. As obras de King que tentaram retratar suas ideias fielmente no cinema não foram bem aceitas pela crítica, não chegando aos pés da criação de King, talvez por esse motivo as adaptações mais bem sucedidas de suas obras tenham sido os dramas que não se utilizam de elementos sobrenaturais como A Espera de um Milagre, Conta Comigo e Um Sonho de Liberdade. Kubrick não tinha como saber disso, mas seu instinto criador sim.

Jack Torrance
Ele aboliu todos os elementos metafísicos improváveis do livro e construiu uma obra densa com carga dramática e tensão persistente capazes de suscitar o medo, mesmo poder que o livro possui. A transformação do personagem de Jack Nicholson é convincente e dramática. Esse perfil de mutação da mente humana é abordado em todas as obras do diretor. Ele brinca com esses fatores mentais como King brinca com o medo escondido no mais íntimo de nosso ser. Kubrick nos deixa na dúvida criando uma atmosfera que propicia a loucura eminente de Jack Torrance, um escritor que aceita tomar conta de um imenso hotel no inverno, período em que o imóvel fica isolado pela neve. Com bloqueio criativo o escritor é tomado por um estresse progressivo capaz de alterar sua sanidade mental. Seu filho é assombrado pelo dom que possui, ele é paranormal e tem visões com o passado trágico do hotel. Para os céticos ele apenas herdou a possível insanidade do pai e todos os fatos sobrenaturais são isolados de forma genial pela direção de Kubrick, que deixa o telespectador decidir qual versão escolher e em que acreditar.

Kubrick construiu um universo que corrobora a loucura provocada pelo medo dos personagens e o nosso próprio. O imenso hotel cheio de vazio e sussurros mudos instaura desde o início a sensação de pânico em quem assiste. A neve como elemento isolador do hotel acentua a fragilidade do homem da mesma forma que impossibilita inúmeras possibilidades. Quando finalmente o casal com seu filho são deixados a sós já estamos em êxtase hipnótico, incitados pelo movimento das câmeras e tomadas que sempre sugerem alguém observando, como se o mal estivesse à espreita e algo fosse acontecer a qualquer momento. O frio é outro fator que nos impele à fraqueza e fragilidade, alie isso ao isolamento físico e mental dos personagens e teremos a receita perfeita para o thriller psicológico que causa danos à nossa sanidade.

Há três momentos capazes de povoar nossa mente desprotegida. A cena em que o filho de Jack roda pelos corredores com seu triciclo em alta velocidade e a cada curva ou porta esperamos uma surpresa, o som das rodas gritando descontroladas aumenta o clima e quando nossa tensão está nas alturas e o coração saltando pela boca surge a visão pavorosa das duas gêmeas que foram mortas pelo antigo zelador em circunstâncias semelhantes à do menino e sua família. É difícil esquecê-las. Outro ponto forte a instaurar o medo é a mulher da banheira que seduz Jack. A imagem arrepia mesmo presente apenas na memória. Por fim ressalto a assustadora atuação de Danny Lloyd no papel do filho de Torrance, Danny, no momento em que está possuído e apanha uma faca repetindo freneticamente a palavra inglesa murder de trás pra frente, a verdade da cena é clássica e assustadoramente real.

Jack Nicholson
O terceiro elemento essencial é o fantástico Jack Nicholson que se entregou ao papel de Jack Torrance de uma forma tão brutal que, segundo o ator, até hoje possui traços da personalidade dele. A incorporação ao personagem feita pelo ator foi fundamental para dar a estrutura necessária a Kubrick para que a transformação psicológica de Jack Torrance fosse tão real. Nicholson parece se divertir e não se incomodar com o monstro que está representando, isso trouxe leveza à sua atuação. O ponto alto é a perseguição a sua chata mulher, interpretada por Shelley Duvall, que na opinião de muitos fãs do filme estragou a obra que poderia ser a maior do mestre Kubrick. Ela é encurralada no banheiro e Jack rompe a porta com um machado colocando seu rosto na fenda e dizendo a lendária e improvisada fala: Here’s Johnny!

All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy. All work and no play makes Jack a dull boy.


Que o cinema esteja com vocês!