14 de janeiro de 2013

Amour (2012)


Amour não fala estritamente do amor, mas de como reagimos à autoflagelação em relação ao sentimento para com o ente amado. É um calmo drama que às vezes nos remete a um thriller psicológico sem precedentes. Causa desconforto com as imperfeições humanas individualistas e muitas vezes necessárias. É um soco no estômago que nos confronta com nossos valores morais e éticos. Até que ponto Amor é amor e até que ponto decidimos amar? Esta é a condição da felicidade ou ela é incondicional?

Haneke e a Palma de Ouro de 2012
Vencedor da Palma de Ouro de Cannes em 2012 e do Globo de Ouro de 2013, Amour é o grande favorito para o Oscar de melhor filme estrangeiro. O diretor e roteirista Michael Haneke construiu um drama denso e sólido que mostra a evolução dos protagonistas quadro a quadro. As câmeras posicionadas de forma estática dão a sensação de que somos crianças observando os movimentos sem entender ao certo o que significam e presos à simples admiração de cada passo do casal Anne e Georges, vividos respectivamente por Jean-Louis Trintignant e por Emmanuelle Riva.

Haneke, Riva e Trintignant
O andamento do filme faz com que nos tornemos passageiros de um veículo que oscila da mesma forma que nossas emoções e lucidez variam com o passar de nossos anos. O filme apesar de ser uma coprodução de França, Áustria e Alemanha, mostra o bom momento dos franceses. Depois do fenômeno de O Artista e anteriormente o belíssimo drama O Escafandro e a Borboleta, já estamos nos acostumando com o sotaque francês nas telonas.

Amour desenvolve-se através de um roteiro coeso que privilegia as transformações psíquicas, principalmente, de Anne, que após sofrer um derrame se vê diante da irreversível tragédia da vida e segura apenas do companheirismo de seu amado marido que demonstra todo seu amor e ímpeto diante do improvável e inesperado dentro de uma relação longeva.

Georges e Anne
Fitando a dificuldade de um envelhecimento real que beira a loucura, Emmanuelle Riva foi indicada ao Oscar de melhor atriz. Sua atuação é perturbadora e seu ótimo desempenho deve-se muito ao contexto de Haneke e a seu companheiro de cena, o não menos talentoso Trintignant. Haneke conhecido por causar inquietude no público, já recebeu a Palma de Ouro por O Laço Branco e mostra logo nos primeiros minutos o tom lúgubre do longa,deixando o caminho aberto para o desenvolvimento dos personagens e de sua estreita relação com o mundo exterior e consigo mesmos.

A trivialidade com que o filme fora realizado convence de que a simplicidade é a maior forma de sofisticação. A trilha sonora é composta por um silêncio ensurdecedor que grita a promessas esquecidas,os acordes ao piano soam como se as teclas fossem tocadas dentro de nós, como madeira talhada e ornamentada para ser amigável a nossos olhos. O filme se passa quase que por completo na casa do casal transportando-nos àquela realidade quase sobrenatural a cada passo de suas reminiscências. A visão intimista de Haneke escancara de forma visceral os votos de até que a morte nos separe e os transforma em algo mais complexo do que uma eterna fidelidade conjugal, tornando humano qualquer deus do amor.

Confira o trailer:

Que o cinema esteja conosco!