19 de janeiro de 2013

Indomável Sonhadora (2012)


Sucesso no Festival Sundance do ano passado Indomável Sonhadora (Beasts of the Southern Wild) é o primeiro longa-metragem de Benh Zeitlin, que recebeu a indicação ao Oscar de melhor diretor, ao todo o filme recebeu quatro indicações incluindo melhor filme e atriz, para a também estreante Quvenzhané Wallis, atriz mais nova a receber uma indicação para essa categoria. Outro estreante nas telonas é Dwight Henry, que vive o pai de Quvenzhané, com uma atuação segura e constante.

A ingenuidade de Hushpuppy (Wallis) nos leva a um mundo completamente imerso de sonhos e significados fantásticos. A linguagem adotada para a narração do filme nos remete aos primórdios da colonização, principalmente no Brasil. É uma linguagem quase indígena, com descrições precisas e sinceras que nos soam como surreais. Ao descrever a construção de uma barragem, seu pai lhe disse que as pessoas que vivem além dela têm medo da água como bebês, os homens da terra seca, essa barragem os separa. Outro momento que faz alusão a essa ingenuidade explica que a área em que moram deveria ser desapropriada, o rio subiria e inundaria aquela região após a construção da barragem, Hushpuppy cita a grande tempestade que estaria por vir, como uma profecia do fim dos tempos que não refletia exatamente os fatos concretos.

Hushpuppy e seu pai
A pureza de vida de Hushpuppy e de seu pai transcende a inocência tornando-se agressiva, mas de forma primitiva, como se toda forma de castigo fosse tolerável e como se a vida consistisse apenas em sobreviver. A mistura de complexidade com a suave nuance de ingenuidade do personagem de Wallis traz um drama recheado de reflexões acerca da existência.

A trilha sonora nos emerge e nos embriaga nos profundos monólogos inocentes de alguém que apenas viu as sombras refletidas dentro da caverna. Seu pai parece tomar o caminho inverso, parece não querer sair de estado de estupor diante do mundo. Hushpuppy, por sua vez, fantasia o encontro com sua mãe em diálogos com uma peça de roupa que teria sido dela, a pequena garota emociona numa mistura de maturidade infantil com sonhos de adulto em nostalgia.A violência com que esse panorama é mostrado parece abater-se sobre nós de forma anestésica e passa-nos despercebido a proximidade real desses fatos com nossa vida.

Quvenzhané Wallis
O filme termina com uma mensagem reflexiva de fé. Fé em um mundo ruim que irá melhorar através de nosso desejo. Como se bastasse usarmos a imaginação para que um novo mundo se construísse diante de nós; como se os sonhos fossem possíveis como o estalar dos dedos; como se a vida fosse uma eterna brincadeira prazerosa sob o olhar de uma criança. Até que acordamos e vemos que a verdade reside em um mundo infantil destruído pouco a pouco pelas mãos de homens que têm medo de água e subjugam sonhos. Não conseguem enfrentar gigantes, como fez Wallis, e seguem fugindo de si mesmos criando subterfúgios e rótulos para tudo.

Confira o trailer:


O homem pode não domar seu instinto de destruição, mas o desejo indomável de sonhar irá pairar sob cada um de nós quando as luzes dos refletores se apagarem. O homem até pode destruir nossas casas, nossos lares, mas jamais destruirão nossos sonhos.

Que os sonhos estejam com vocês!