11 de novembro de 2012

A Felicidade é um Cobertor Quente


Charles Monroe Schulz, criador do Snoopy e sua turma, sempre mergulhou suas tirinhas em filosofia, lições de valor moral e as tiradas infantis mais sensacionais que já vi. Quando criança não entendia todas as mensagens presentes na turma do Charlie Brown, mas agora parece um Mundo de Sofia. Em A felicidade é um cobertor quente não é diferente. O longa foi lançado em 2011 e foi o primeiro sem o diretor Bill Meléndez, que faleceu em 2008. A direção ficou a cargo de Andy Beall (Up, Ratatouille) e Frank Molieri.

Escrever sobre a felicidade não é tarefa fácil, mas para Schulz é como uma qualidade intrínseca. A incapacidade de Linus de deixar seu cobertor é o mote da história. O desenho termina com chave de ouro e com uma lição valiosa: quem de nós não se agarra a algo para se sentir seguro? Algumas dessas coisas são invisíveis ou menos visíveis. Tem gente que carrega uma máquina de escrever para todos os lugares.
Última tira do Peanuts de Charles M. Schulz

A felicidade é algo extremamente profundo assim como o amor. Jesus nos disse que para encontrá-la devemos ser gentis com o próximo, Epicuro acreditava nela como a realização de nossos desejos carnais, já Freud disse que ela é o combustível da vida e que o propósito de viver é a felicidade.

Ser feliz é ter a mente livre de todo mal mundano e viver apenas em prol do que é bom. Apesar de Buda acreditar que não há caminho para a felicidade, sendo a felicidade o próprio caminho. Ela está presente nas coisas mais puras e simples: um abraço de filho ou de quem se ama, um sorriso de amigo ou uma palavra reconfortante. O amor de mãe. A realização de uma jornada. Os amigos e tudo que é capaz de transformar nosso estado de espírito.

Outras coisas são fugazes. O reconhecimento de uma determinada tarefa não deve ser visto como felicidade, até pela brevidade. Deve ser encarada como alimento para o ego. Felicidade é plena e completa, não é mínima e pequena. Ainda que seja simples é duradoura.

Encontrar a felicidade é tão difícil quanto entender o sentido da vida. Talvez esses dois enigmas se respondam por si. Talvez se buscarmos um pouco mais de amor, como Jesus quis que o fizéssemos. Talvez se déssemos mais valor às coisas naturais, como uma caminhada no parque com o ar puro das árvores e o ir e vir livre dos pássaros e insetos. Talvez se ouvíssemos as crianças e suas verdades inesperadas, mescladas com a realidade quase irreal de viver em sonhos, qualidade que perdemos ao crescer. Quem sabe se amássemos mais, déssemos mais risadas, valorizássemos as poucas horas que passamos realizando o que realmente gostamos. Talvez assim fôssemos felizes de fato.

A felicidade que ficou no passado torna-se tristeza ao ser recordada no presente. Pensar em felicidade já é afirmar a ausência dela, pois felicidade é um estado de espírito quase imperceptível. A felicidade que conseguimos descrever não é bem felicidade, em sua forma concreta torna-se indescritível, o que podemos é descrever as sensações quando estamos em sua presença e mesmo que utilizássemos todo nosso vocabulário não conseguiríamos demonstrar com exatidão o que ela significa para nós.

No Peanuts de Schulz ela é vista como todas as coisas com as quais passamos nosso tempo de forma agradável, o piano de Schroeder, a comida do Snoopy e até a sujeira de Chiqueirinho, que representa exatamente o que é ser feliz de verdade: fazer o que gostamos sem se preocupar com o quão estranho isso seja. E se precisarmos nos agarrar a algum cobertor, que seja, todos temos inseguranças e temores, vergonha seria não admitir nossa incapacidade de sermos felizes sozinhos. Como já disse Tom Jobim: fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.

Que a felicidade esteja com vocês!


Happiness Is a Warm Blanket, Charlie Brown (Video 2011) on IMDb