27 de novembro de 2012

Amor Além da Vida (1998)


Reli recentemente A Divina Comédia de Dante Alighieri e revi Amor Além da Vida. São obras belíssimas que permearão por muitos anos a esfera do mito do amor platônico. A obra de Dante possui um local na história do platonismo que ultrapassa a própria concepção de infinito criada por Platão ao introduzir o termo de alma gêmea. O filme aborda as duas concepções: Um amor infinito vivido por almas gêmeas.

O amor platônico não é interpretado nos dias de hoje da forma concebida por Platão em O Banquete. A ideia de platonismo é vista como um amor distante, que não acontece, não se realiza. É vivido principalmente por adolescentes e envolve certa impossibilidade por uma das partes. Por exemplo, é considerado um amor platônico alguém que se enamora de outrem que já está comprometido, este amor permanece “guardado” dentro do amante evidenciando o platonismo deste em relação a seu objeto de amor.

Platão
O amor descrito por Platão é o amor ideal, perfeito, baseado não em relações, mas em virtudes. O conceito de alma gêmea surgiu do mito do amor perfeito, segundo Platão o amor é algo essencialmente puro e desprovido de interesses de quaisquer gêneros, o amor puro é a base de todas as virtudes e da verdade. É este amor que guia Chris Nielsen (Robin Williams) em busca de sua amada.

Chris e Annie Nielsen, interpretada por Annabella Sciorra (A Mão que Balança o Berço), se conheceram em uma paisagem de contos de fadas, digna de paraíso, os primeiros minutos do filme nos remetem ao clima de romantismo que virá: uma jornada em prol do amor. O clima de romance permeia e incendeia o ar. Eles se casam e têm uma vida feliz com seus dois filhos, um cão e uma rotina incansável. Tudo muda quando seus filhos sofrem um acidente e não sobrevivem. Annie é a que mais sofre pela perda.

Chris Nielsen
Cercado de diálogos psicanalíticos o longa flui naturalmente, como o passar do vento, como o fugir das horas, o bater das ondas, a força do tempo. E com o tempo vem o fim dos dias, Robin Williams também falece e é recebido no outro mundo por Albert (Cuba Gooding Jr.), velho amigo e ex-professor de Chris. A fotografia e os efeitos especiais (premiado pelo Oscar de 1999) fazem jus ao Paraíso e tomam conta da tela. Como uma espécie de Limbo de Dante, o Paraíso é o que cada um imagina para si.

Annie Nielsen
Esse tom quente e calmo é contrastado com o roxo pincelado com agressividade, quase impressionista, por Annie que demonstra princípios de insanidade. A árvore pintada por ela no mundo real é vista por Chris no Paraíso. Não suportando a dor da ausência do amado ela comete suicídio e vai para o inferno.

Nielsen e Albert
O roteiro do filme foi baseado no livro de Richard Matheson, este é um dos três filmes inspirados em seus livros, os outros foram: Eu Sou a Lenda, que foi filmado três vezes, sendo a mais conhecida a que teve Will Smith e Alice Braga, o outro: Em Algum Lugar do Passado, de 1980, teve Christopher Reeve como protagonista. A Divina Comédia é referenciada quando Chris decide ir ao inferno em busca de sua amada, com a ajuda do rastreador, interpretado por Max Von Sydow (Ilha do Medo, Robin Hood), que incorpora um psicanalista no estilo de Freud, psíquica e fisicamente. Annie representa a Beatriz de Dante e sua incessante busca pela amada, que o leva a atravessar o inferno com destino ao Paraíso. Albert e o rastreador cumprem o papel de Virgílio, que guia Dante em sua aventura. Chris e Annie são almas gêmeas, possuem um amor platônico, perfeito, o que os une na vida e na morte e permite que Robin Williams a ouça e a sinta em qualquer lugar.

A descrição de céu e inferno feitas na Divina Comédia são bem correspondidas no filme, a direção de arte obteve uma indicação ao Oscar. A trilha sonora possui uma pequena peculiaridade, Nino Rota, célebre autor do tema do Poderoso Chefão, compôs uma trilha, que mais tarde não foi aceita pelos idealizadores sem que estes explicassem o motivo da negativa, ela então ficou a cargo do genial maestro Michael Kamen, que recebeu o Grammy de 2001 por melhor rock instrumental com a canção The Call of Ktulu da banda de heavy metal Metallica, no lendário álbum S&M. Ele ficou encarregado a dar voz à beleza do céu e ao sofrimento do inferno.


Que o cinema esteja com vocês!