12 de novembro de 2012

Laranja Mecânica (1971)


Li outro dia, no blog português Obvious, um artigo sobre o clássico Laranja Mecânica. O texto discorre sobre os dois finais existentes na história. No campo de comentários surgiu o assunto do lado negro da laranja. Pensando sobre esse “Dark Side of the Orange” me vi às portas do existencialismo sartriano. A história de Anthony Burgess e a adaptação feita para o cinema por Stanley Kubrick contextualizam duas versões da mesma laranja. Discorro agora sobre as duas partes da Laranja Mecânica.

Entre o fim do livro e o fim do filme existem dois finais, no livro Alex, líder da gangue, é recuperado através do Tratamento Ludovico. No filme, após sua prisão e à aversão assistida à base de drogas e exposição a filmes de violência, ele ainda permanece como dantes, um arruaceiro.

Uma das cenas mais horror show do cinema
Alex, que no cinema teve seu papel interpretado por Malcolm McDowell, tem seu lado negro exposto durante suas transgressões, tal como uma das cenas mais perturbadoras da história do cinema, ele e sua turma invadem a casa de um escritor e estupram sua esposa, enquanto Alex canta e dança Singin’ in the rain.

Para a maioria dos fãs de Laranja Mecânica, a versão de Stanley Kubrick é a mais aclamada, por manter Alex com seu lado negro. Enquanto no livro de Anthony Burgess ele se regenera e se purifica. O lado negro não é bem um lado negro e sim a essência de Alex, que por definição é má. O outro lado é resultante das sequelas pós-traumáticas sofridas por ele no decorrer de seu tratamento. Jean Paul Sartre, filósofo francês do século passado e precursor do movimento existencialista, afirmava que a existência precede a essência, ou seja, primeiro existimos depois ganhamos nossa essência, que pode ser influenciada pelo meio em que vivemos, mas jamais alterada.

Imaginem uma laranja. Ela cresce em uma laranjeira e quando amadurece revela um suco adocicado e rico em vitamina C. Essa é sua essência. Se utilizarmos a laranja como bola de futebol, ainda assim ela será uma laranja. Se colocarmos sal em seu suco ele ficará amargo, mas sua essência permanecerá doce. Dessa forma afirmo que não há um lado bom em Alex, sua essência jamais foi alterada, seu lado negro apenas foi pintado de branco, mas sua escuridão permanece lá. Portanto a versão criada por Kubrick está mais contextualizada e pertinente à personalidade de Alex, talvez por isso seja tão cultuada no mundo.

Dizer que a existência precede a essência é afirmar um antiteísmo, mas se Deus criou primeiro a essência, o homem nasce bom e, como afirmou Jean-Jacques Rousseau, a sociedade o corrompe. Quem corrompe a sociedade é o mal. Sendo assim seríamos apenas vítimas do mal, mas como afirma Sartre, o homem é o único responsável pelo que é. Portanto não creio em um lado negro de Alex, mas sim em sua essência.

Anthony Burgess escreveu Laranja Mecânica (A Clockwork Orange) em 1962, com uma grande preocupação com o behaviorismo, que estava em alta nas clínicas psicológicas, e com o aumento da delinquência juvenil, tanto na Rússia Soviética, quanto no Ocidente capitalista. O idioma nadsat utilizado por Alex e seus drugues também foi criado por Burgess, uma mistura de russo com gírias inglesas. O último capítulo do livro foi suprimido em inúmeros países do mundo, por mostrar um Alex recuperado. Em 1971 o gênio Stanley Kubrick adaptou o livro para as telas do cinema, dando cor ao krovvy e vida à ultraviolência.


Que o cinema esteja com vocês!