17 de novembro de 2012

Na Natureza - Selvagem?


O livro Na Natureza Selvagem de Jon Krakauer, narra a história de Chris McCandless. Um jovem inteligente, instruído e aventureiro (acima de tudo) que decidiu deixar sua vida “normal” e viver “da terra”. Sua última aventura o levou ao Alaska, local onde viveu por cerca de quatro meses praticamente da própria natureza. Em 2007 Sean Penn o adaptou para as telas. Em rodas de discussão ou entre amigos, sempre que alguém fala de Chris a pergunta que surge é a mesma: ele ficou louco? Discorrerei um pouco sobre essa “loucura”.

Chris tinha uma vida confortável e praticamente sem preocupações, tanto pelo lado material – seu pai possui uma empresa de consultoria e projeta antenas para a NASA - quanto pelo lado espiritual – acabara de se formar com notas altíssimas, era inteligente e simpático, todos que o conheciam afirmavam que era quase impossível não gostar dele.

Com seu espírito aventureiro ele cruzou os Estados Unidos até chegar ao Alaska, sempre fazendo amizades por onde passava. Chris, que teve a suave interpretação de Emile Hirsch, vive de empregos temporários, foge de todo materialismo e relações humanas. Influenciado por Thoreau, Jack London e Tolstoi, busca no natural a verdade sobre a vida e sua essência pura e simples.

Sean Penn e Jon Krakauer
A maestria com que Penn conduziu o filme pelas mais belas paisagens dos Estados Unidos embalada com a sensível trilha de tom melancólico de Eddie Vedder (trilha que foi agraciada com um Globo De Ouro) torna quase impossível a quem assiste uma não identificação com a história de Chris. Até pelo próprio espírito humano de liberdade e compaixão, somos compelidos à emoção diante das imagens e do significado de todos os nossos dias.

O que o ser humano busca em geral é conforto! Seja ele qual for. Somos impelidos a não mudar jamais, a menos que essa mudança se faça necessária para um conforto maior. Assim abrimos mão do que poderíamos ter pelo simples medo de perder o que já temos. Deixamos que a comodidade de nosso pseudo conforto nos prive das aventuras de uma vida livre e cheia de emoções. Deixamos que a opinião das massas nos atire para a sarjeta do consumismo e nos mergulhamos nessa lama de estagnação em forma de trabalho e rotina. Fingimos nosso sustento para que não precisemos sair de onde estamos, fingimos amar o próximo para que não precisemos pensar em uma resposta aceitável para nós mesmos. É impossível não citar um trecho da canção composta por Humberto Gessinger para os Engenheiros do Hawaii, que diz: “erguemos muros que nos dão a garantia de que viveremos cheios de uma vida tão vazia.”

Chris McCandless
Portanto compreendo essa “loucura” a que os homens se referem e a que estão atrelados, para não dizer, lambuzados e atolados. Poucos param para pensar no que um filósofo pré-socrático nos disse: é na mudança que encontramos propósito. Heráclito acreditava que nada era como antes mesmo parecendo ser. A água de um rio jamais será a mesma, pois você não é o mesmo e ela também não. E nesse instante surge um Lulu Santos na mente: nada do que foi será de novo do jeito que já foi um dia. Ainda que nos sintamos confortáveis diante de uma situação essa estagnação irá nos trazer, apenas, um “pseudo-sentimento” de realização, uma satisfação vazia: I can’t get no satisfaction.

Deixar uma situação confortável para seguir um instinto quase “animal” pode, sim, ser loucura. Mas não vejo muita vantagem em uma vida no meio desse labirinto de concreto, quando poderíamos estar em um ambiente que inspira paz. Quem não trocaria a poluição pela vegetação virgem? Uma noite tranquila por sirenes e balas perdidas?

Os defensores do mundo moderno dirão que as cidades possibilitam ao homem estar em constante proximidade às tecnologias, aos acontecimentos, aos fatos. Mas afinal, somos usuários ou dependentes da tecnologia? Somos homens livres como afirma a constituição? Feita pelos mesmos homens brancos que um dia escravizaram o negro. Ou somos reféns de nosso próprio orgulho e vaidade?

Chamamos de louco àquele que diz o contrário. E vou mais além, podemos afirmar que todos que contrariam a maioria são rotulados de loucos. Eu mesmo chamo de “doideira” o que foge ao “normal” ao “padrão” em que estamos habituados desde que nascemos. Mas nos esquecemos que jamais devemos perder a capacidade de nos impressionar com as coisas.

Emile Hirsch
Chris McCandless optou por um pseudônimo em sua fuga da civilização, agora ele era Alexander Supertramp. Ao terminar de ler Doutor Jivago sublinhou o trecho: “Lara caminhou ao lado dos trilhos, seguindo uma trilha gasta pelos peregrinos, e depois entrou nos campos. Ali parou e, fechando os olhos, respirou fundo o ar perfumado pelas flores da vastidão em tomo dela. Aquilo era mais querido para ela do que seus parentes, melhor que um amante, mais sábio que um livro. Por um instante, redescobriu o objetivo de sua vida. Estava aqui na terra para captar o sentido desse encantamento selvagem e chamar cada coisa por seu nome certo, ou, se não fosse capaz disso, dar à luz, por amor à vida, sucessores que o fariam em seu lugar.” E repetindo para si mesmo: chamar cada coisa por seu nome certo. Ele percebe que deve utilizar seu próprio nome. Ainda que este não esteja embebido em seu espírito curioso e ávido pela vida livre e natural que busca.

Após anos longe da civilização é possível que McCandless tenha mudado seus princípios. Outro trecho de Doutor Jivago mostra certa mudança na postura “selvagem” de Chris: “E assim se concluiu que somente uma vida semelhante à vida daqueles ao nosso redor, mesclando-se a ela sem murmúrio, é vida genuína, e que uma felicidade não compartilhada não é felicidade. [...] E isso era o mais perturbador de tudo.” Após esse trecho ele escreveu: “FELICIDADE SÓ REAL QUANDO COMPARTILHADA”.

Confira o Trailer abaixo:


Sobre a pergunta à qual me referi no início do texto a resposta que sempre dou é: ele ficou são!

“Vinde a mim e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará.”


Que a verdade esteja com vocês!